Por Alecsander Tatagiba*
O discurso é lógico. É isto a lógica do discurso? Caso não, o que pode ser considerado um discurso lógico? E quais as possibilidades da lógica deste discurso? Sim, deste discurso e não de outro. A necessidade deste discurso. Este e não outro. Um discurso definido e lógico? Sim. A definição de um discurso. Este discurso. É lógico que o discurso é lógico, bem como a lógica deste discurso é possível visto que já se afirmou a necessidade deste discurso. Este discurso já encontra-se definido e lógico? Caso sim, e devido a isto e necessariamente por isto é que ele é lógico?
Não é lógico que o discurso tenha necessariamente que ser lógico? Caso não seja lógico, o discurso deixa de ser lógico passando a não mais ser discurso? Caso o discurso não seja mais discurso, qual a lógica disto?
Tendo o discurso deixado de ser discurso, o que é então o discurso? Uma definição do que não é um discurso. Definir o que uma coisa é, partindo do que esta mesma coisa não é. Afirmação fundada numa afirmação de uma negação desta mesma afirmação. É lógico? É correto? Corrigir de modo lógico um engano lógico de uma lógica. Está correto? Corrigir um engano lógico é lógico dentro desta lógica? E que lógica é esta? A lógica do engano. Tal lógica corrigida supera o engano lógico anterior, voltando ao discurso definido a partir de uma definição do que não é discurso. É correto ou um erro de um discurso definido como discurso e corrigido de modo lógico dentro de um erro lógico dentro de uma lógica?
* Texto Extraído de "Pequenas Considerações Lógicas", de Alecsander Tatagiba. Escrito em Outubro de 2008 e publicado no site "Overmundo" em 17 de Agosto de 2009.
Um discurso lógico de uma lógica do discurso
Consumidores X Cidadãos
Por Guilherme Carvalhal
Vários estudos na sociologia costumam apontar uma mudança na relação entre pessoa e Estado no século XX em decorrência da alteração no perfil do primeiro sujeito desta relação. Estes estudos concluem que através do fomento do consumo em massa, capitaneado pela comunicação através da indústria cultural, os membros das sociedades seriam cada vez menos cidadãos e mais consumidores. Uma ótica assim costuma ser inerente a um visão negativa sobre os componentes de uma sociedade serem mais consumidores do que cidadãos.
A base das sociedades atuais, de deocracias liberais, se deu com a participação popular, como nas comunas após a Revolução Francesa e na democracia norte-americana. Logo, perder o princípio fundador que é a participação dos cidadãos nas tomadas de decisão seria a perda da base que constitui o regime. Sem cidadãos, nada de democracia, e daí a visão negativa sobre esta mudança.
A tendência pelo desinteresse pela participação na política é mundial. Países onde o voto é opcional registram redução na quantidade de eleitores. Os debates políticos não têm uma grande capacidade de envolvimento popular. Tudo isso são indícios de uma sociedade em que o consumo e a produção são mais importantes que debater e solucionar problemas comuns a todos.
Apesar destes apontamentos, há quem defenda a importância da lógica do consumidor prevalecendo sobre a do cidadão para alguns pontos das políticas desenvolvidas. Boa parte do dito Estado de Bem-Estar (Welfare State), por exemplo, teria como base não a participação dos cidadãos, e sim dos consumidores.
O Estado de Bem-Estar surgiu de uma série de direitos conquistados. Do direito a moradia surgem políticas habitacionais, do direito à saúde o SUS, do direito à educação o sistema público de ensino, e assim prossegue às mais diversas esferas. A lógica do consumidor é importante por ser esta reponsável pelo “eu quero”, e deste querer surgem as pressões, resultando nestes direitos. E, no contexto atual das sociedades, o lado cosumidor das pessoas teria também sua importância para a configuração da definição das políticas públicas.
Cultura e sociedade
Por Alecsander Tatagiba*
Produzir coisas relacionadas à cultura contribui de que forma para a sociedade? Talvez no sentido de permitir algo diferenciado ao que se convenciona denominar projetos sociais, que podem por vezes não ultrapassar uma atividade mais próxima do bom-mocismo ou do politicamente correto.
Como então sair desse embaraço? O que deve ser prioridade? Soluções sociais relacionadas à questões mais à vista no que se refere a uma mais fácil identificação e constatação como por exemplo combate à violência, erradicação da fome e erradicação de doenças ou possibilidade de saída para um universo onde tais questões são colocadas e compreendidas por outra perspectiva?
A questão surgida disto relaciona-se em procurar descobrir qual o real papel da cultura em meio ao redor dela própria. Parece uma redundância devido aos termos utilizados parecerem possuir o mesmo sentido e significado. Deve mesmo a cultura retratar o universo mais próximo e mais imediato ou deve ela superar seus próprios horizontes buscando em outros meios fazer se valer enquanto perspectiva e possibilidade de inserção em qualquer ambiente por mais estranho que lhe possa ser? A pergunta que se segue disto nada mais é do que a seguinte: pra que Cultura? Qual seu propósito, qual sua finalidade? Cultura não é entendida aqui enquanto apenas consumo de cultura, mas sim como elaboração de uma cultura evitando a demasiada reprodução de cultura e uma maçante (no sentido de quantidade) e “massante” (no sentido de manipulação para se atingir o maior número de pessoas) produção de cultura.
A saída para tal talvez possa passar pelo vivenciamento da e na cultura. Como é isto possível? A partir de uma inauguração de um modo de se proceder perante a cultura fundamentado no relato oral e não apenas em documentações. Em outras palavras, a cultura livresca estaria dentro desta perspectiva em segundo plano, mas nem por isso desvalorizada.
Voltamos ao questionamento inicial. O que se segue disto que foi mencionado anteriormente parece uma contestação do modo como o mundo acadêmico lida com questões a princípio desligadas e destoadas dele devido ao seu fechamento em si mesmo, transparecendo o fosso existente entre o mundo acadêmico e o mundo real e dos “meros mortais”. Talvez isto possa ser considerado uma crítica, porém uma crítica fundamentada primeiramente em uma análise e não em uma noção de ataque.
Deve mesmo a cultura estar amarrada e presa a uma instituição com visibilidade maior do que ela mesma? Deve mesmo a cultura estar submissa a uma instituição detentora de uma possibilidade maior e mais rápida para divulgar os resultados do desmembramento de suas atividades. Em outras palavras, será mesmo correta uma espécie de “Fábrica de Cultura”?
* Este texto publicado na Revista "De bem com a Vida" Edição de Julho de 2009 e no site "Overmundo" em Agosto de 2009.
Distopias no mundo atual
O século XX foi permeado de obras de ficção imaginando o futuro e fazendo previsões trágicas sobre como será este porvir. São Obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, entre outras. Estes livros apontam para um futuro distópico, de governos tiranos controlando a todo momento a vida das pessoas, e uma sociedade sem espaço para liberdade e expressão individual, com o excesso do prazer, coisificação do ser humano e perda do pensamento crítico funcionando como ferramentas para esta dominação.
Estes livros foram escritos em um momento específico do século passado: Fahrenheit 451 em 1953, Admirável Mundo Novo em 1932, e 1984 em 1949, contextualizados por eventos como a ascenção do fascismo, crise de 1929 e a Guerra Fria. Tendo como arcabouço os dilemas, frustrações, medos e desejos da época, cada um expressa de uma forma diferente uma sociedade autoritária regida pela mão de ferro de um governo déspota.
Admirável Mundo Novo se passa em um mundo em que a contagem dos anos se divide em Antes de Ford e Depois de Ford, colocando a indústria capitalista no mesmo nível de uma religião. A sociedade distópica criada por Huxley é altamente estratificada, com as camadas sendo denominadas por letras gregas, indo da mais alta elite até os simplórios empregados. A autoridade não é empregada pela força, e sim pela dominação ideológica. Através da facilidade do prazer, como do sexo fácil e de uma droga chamada soma, “as mesmas vantagen da cocaína e de Deus sem suas desvantagens”, como expilica o autor, os habitantes simplesmente não sentem necessidade de questionar nada, submetend-se aos demandos do Estado. A dominação ainda se estende pela supressão dos sentimentos, combatidos pelo mesmo soma, tornando a todos apáticos e conformados. A quem ousar se rebelar, o exílio em uma ilha o aguarda.
Já 1984 apresenta um mundo mais trágico, marcado pelo uso da força bruta para se manter a dominação. A história se passa na fictícia Oceânia, onde prevalece a fome e a escassez de todos os alimentos e produtos entre as classes baixas. O país vive em guerra com os vizinhos e a máquina de propaganda do governo consegue convencer a todos de que tudo está indo muito bem, e sua força é tamanha que a grande maioria consegue acreditar, mesmo sem ter o que comer. Àqueles que se rebelam está reservada a tortura. O livro teve um motivo específico para ser escrito. Orwell, comunista convicto, participou da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, contra as forças fascistas. Porém decepcionou-se ao ver o apoio dado pelo Exército Vermelho, então aliado do Eixo, às forças franquistas. O que se viu no front espanhol foram comunistas contra comunistas, levando Orwell a produzir sua obra para criticar a União Soviética e seu simples projeto de dominação, a invés do projeto de emancipação do proletariado.
Fahrenheit 451, mais conhecido pela versão cinematográfica de François Truffaut, apresenta uma distopia mais voltada para o campo cultural. Na sociedade imaginada por Bradbury, a leitura é proibida e cabe aos Bombeiros (Firemen, em inglês) queimar o livro. A dominação pela ignorância é mantida através do excesso de televisão, contrapartida de prazer dada às pessoas. Sem existir senso crítico, toda a população se submete à dominação sem resistir.
Consequências
Estas obras, apesar do caráter ficcional, tiveram um grande peso sobre a cultura do séxulo XX por provocar a imaginação de até que ponto regimes autoritários aliados a tecnologia de ponta podem causar resultados catastróficos. E a sombra do regime nazista sempre pairou sobre tal pensamento.
Toda forma de analisar algum método de fiscalização após a concepção dessas obras acabou passando pelo crivo das ideia apresentadas nelas. Sistemas de vigilância sempre são associados ao Grande Irmão, líder da sociedade de 1984 que assistia a tudo que acontecia através de uma série de câmeras espalhadas pelas cidades e de microfones pelos campos. O ápice da industrialização e a coisificação do ser humano são associadaos ao domínio pela desvalorização da pessoa de Admirável Mundo Novo. E a censura, a proibição do livre pensar, sempre estará associada a Fahrenheit 451, servindo de inspiração para o título do filme Fahrenheit 11/9, de Michael Moore, para apontar o clime de mentiras que cercou o atentado terrorista contra as torres gêmeas.
Porém, durante o período da Guerra Fria estas distopias pareceram reais o suficiente para assustar a todos e causar a sensação de poderem se realizar, mas será que atualmente esta situação permanece?
Um dos principais pesadelos de 1984 é o medo de ser constantemente vigiado, pela figura do Grande Irmão. Em todo lugar há câmeras de vigilância, e os próprios vizinhos ficavam de olho uns nos outros, prestes a denunciar qualquer desvio de conduta. Esta situação serve de argumento para questionar excesso de fiscalização, como por exemplo dentro de empresas.
A diferença dos dias atuais é a mudança de perspectiva sobre os âmbitos privados e públicos. Na ficção de Orwell, toda vida privada é constantemente vigiada, tornando-se coisa pública ao se descobrir alguma subversão, quando o criminoso é exposto à humilhação perante os demais habitantes. No nosso mundo atual, a vida privada é uma espécie de condenação; são todos tão privados que aparentemente a exposição faz falta, vide as manifestações na internet, onde pessoas se expõem, e nos reality shows e sonhos de se tornar celebridade. Um Grande Irmão a se interessar pelas pessoas isolados chega a ser desejável.
Pela ótica de Huxley, o grande absurdo de sua distopia é a coisificação do ser humano através do excesso de racionalismo provocado pela industrialização e da sociedade do prazer. A política do panis et circense utilizada pelos dominadores cria pessoas indolentes, incapazes de agir por conta própria e de emitir opiniões. Na sociedade atual podemos perceber estes aspectos, como no detrimento do figura do cidadão em prol da do consumidor, dos espectáculos da morte na grande mídia, como guerras, violência urbana e catástrofes naturais transmitidas pela televisão, e na fragmentação do ser humano, cada vez mais isolado e dependente de substâncias semelhantes ao soma.
E, se Bradbury questionava a proibição dos livros e a apatia pela televisão, é mais ou menos esta realidade atual. Maiores esforços intelectuais são apontados como complexos, espaço onde as rasas narrativas televisivas ganham espaço. E nem foi precisoproibir a leitura para este tipo de situação acontecer.
Conclusão
Apesar de atualmente, ao menos no mundo ocidental, vivermos em sociedades liberais e democráticas, onde não há ameaças sérias de autoritarismo, apesar de haver presidentes populistas querendo aumentar seu poder na América Latina e de uma ascenção de políticas direitistas na Europa, é visível a presença de alguns aspectos da literatura distópica na atualidade, como citamos anteriormente. Não há governos absolutos oprimindo o cidadão, mas nota-se a existência, com certaz variações, de alguns aspectos apontados por estes autores.
A diferença básica dos dias de hoje para a época em que eles viveram é a ausência de projeções futuras, tanto utópicas quanto distópicas. Os dias de amanhã são um imenso vazio; enquanto na década de 1960 podia-se esperar bombas atômicas ou a vinda de uma Era de Aquário baseada na filosofia paz e amor, a queda do muro de Berlim levou consigo todas as expectativas do mundo atual. Tanto para o bem, quanto para o mal.
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