O século XX foi permeado de obras de ficção imaginando o futuro e fazendo previsões trágicas sobre como será este porvir. São Obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, entre outras. Estes livros apontam para um futuro distópico, de governos tiranos controlando a todo momento a vida das pessoas, e uma sociedade sem espaço para liberdade e expressão individual, com o excesso do prazer, coisificação do ser humano e perda do pensamento crítico funcionando como ferramentas para esta dominação.
Estes livros foram escritos em um momento específico do século passado: Fahrenheit 451 em 1953, Admirável Mundo Novo em 1932, e 1984 em 1949, contextualizados por eventos como a ascenção do fascismo, crise de 1929 e a Guerra Fria. Tendo como arcabouço os dilemas, frustrações, medos e desejos da época, cada um expressa de uma forma diferente uma sociedade autoritária regida pela mão de ferro de um governo déspota.
Admirável Mundo Novo se passa em um mundo em que a contagem dos anos se divide em Antes de Ford e Depois de Ford, colocando a indústria capitalista no mesmo nível de uma religião. A sociedade distópica criada por Huxley é altamente estratificada, com as camadas sendo denominadas por letras gregas, indo da mais alta elite até os simplórios empregados. A autoridade não é empregada pela força, e sim pela dominação ideológica. Através da facilidade do prazer, como do sexo fácil e de uma droga chamada soma, “as mesmas vantagen da cocaína e de Deus sem suas desvantagens”, como expilica o autor, os habitantes simplesmente não sentem necessidade de questionar nada, submetend-se aos demandos do Estado. A dominação ainda se estende pela supressão dos sentimentos, combatidos pelo mesmo soma, tornando a todos apáticos e conformados. A quem ousar se rebelar, o exílio em uma ilha o aguarda.
Já 1984 apresenta um mundo mais trágico, marcado pelo uso da força bruta para se manter a dominação. A história se passa na fictícia Oceânia, onde prevalece a fome e a escassez de todos os alimentos e produtos entre as classes baixas. O país vive em guerra com os vizinhos e a máquina de propaganda do governo consegue convencer a todos de que tudo está indo muito bem, e sua força é tamanha que a grande maioria consegue acreditar, mesmo sem ter o que comer. Àqueles que se rebelam está reservada a tortura. O livro teve um motivo específico para ser escrito. Orwell, comunista convicto, participou da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, contra as forças fascistas. Porém decepcionou-se ao ver o apoio dado pelo Exército Vermelho, então aliado do Eixo, às forças franquistas. O que se viu no front espanhol foram comunistas contra comunistas, levando Orwell a produzir sua obra para criticar a União Soviética e seu simples projeto de dominação, a invés do projeto de emancipação do proletariado.
Fahrenheit 451, mais conhecido pela versão cinematográfica de François Truffaut, apresenta uma distopia mais voltada para o campo cultural. Na sociedade imaginada por Bradbury, a leitura é proibida e cabe aos Bombeiros (Firemen, em inglês) queimar o livro. A dominação pela ignorância é mantida através do excesso de televisão, contrapartida de prazer dada às pessoas. Sem existir senso crítico, toda a população se submete à dominação sem resistir.
Consequências
Estas obras, apesar do caráter ficcional, tiveram um grande peso sobre a cultura do séxulo XX por provocar a imaginação de até que ponto regimes autoritários aliados a tecnologia de ponta podem causar resultados catastróficos. E a sombra do regime nazista sempre pairou sobre tal pensamento.
Toda forma de analisar algum método de fiscalização após a concepção dessas obras acabou passando pelo crivo das ideia apresentadas nelas. Sistemas de vigilância sempre são associados ao Grande Irmão, líder da sociedade de 1984 que assistia a tudo que acontecia através de uma série de câmeras espalhadas pelas cidades e de microfones pelos campos. O ápice da industrialização e a coisificação do ser humano são associadaos ao domínio pela desvalorização da pessoa de Admirável Mundo Novo. E a censura, a proibição do livre pensar, sempre estará associada a Fahrenheit 451, servindo de inspiração para o título do filme Fahrenheit 11/9, de Michael Moore, para apontar o clime de mentiras que cercou o atentado terrorista contra as torres gêmeas.
Porém, durante o período da Guerra Fria estas distopias pareceram reais o suficiente para assustar a todos e causar a sensação de poderem se realizar, mas será que atualmente esta situação permanece?
Um dos principais pesadelos de 1984 é o medo de ser constantemente vigiado, pela figura do Grande Irmão. Em todo lugar há câmeras de vigilância, e os próprios vizinhos ficavam de olho uns nos outros, prestes a denunciar qualquer desvio de conduta. Esta situação serve de argumento para questionar excesso de fiscalização, como por exemplo dentro de empresas.
A diferença dos dias atuais é a mudança de perspectiva sobre os âmbitos privados e públicos. Na ficção de Orwell, toda vida privada é constantemente vigiada, tornando-se coisa pública ao se descobrir alguma subversão, quando o criminoso é exposto à humilhação perante os demais habitantes. No nosso mundo atual, a vida privada é uma espécie de condenação; são todos tão privados que aparentemente a exposição faz falta, vide as manifestações na internet, onde pessoas se expõem, e nos reality shows e sonhos de se tornar celebridade. Um Grande Irmão a se interessar pelas pessoas isolados chega a ser desejável.
Pela ótica de Huxley, o grande absurdo de sua distopia é a coisificação do ser humano através do excesso de racionalismo provocado pela industrialização e da sociedade do prazer. A política do panis et circense utilizada pelos dominadores cria pessoas indolentes, incapazes de agir por conta própria e de emitir opiniões. Na sociedade atual podemos perceber estes aspectos, como no detrimento do figura do cidadão em prol da do consumidor, dos espectáculos da morte na grande mídia, como guerras, violência urbana e catástrofes naturais transmitidas pela televisão, e na fragmentação do ser humano, cada vez mais isolado e dependente de substâncias semelhantes ao soma.
E, se Bradbury questionava a proibição dos livros e a apatia pela televisão, é mais ou menos esta realidade atual. Maiores esforços intelectuais são apontados como complexos, espaço onde as rasas narrativas televisivas ganham espaço. E nem foi precisoproibir a leitura para este tipo de situação acontecer.
Conclusão
Apesar de atualmente, ao menos no mundo ocidental, vivermos em sociedades liberais e democráticas, onde não há ameaças sérias de autoritarismo, apesar de haver presidentes populistas querendo aumentar seu poder na América Latina e de uma ascenção de políticas direitistas na Europa, é visível a presença de alguns aspectos da literatura distópica na atualidade, como citamos anteriormente. Não há governos absolutos oprimindo o cidadão, mas nota-se a existência, com certaz variações, de alguns aspectos apontados por estes autores.
A diferença básica dos dias de hoje para a época em que eles viveram é a ausência de projeções futuras, tanto utópicas quanto distópicas. Os dias de amanhã são um imenso vazio; enquanto na década de 1960 podia-se esperar bombas atômicas ou a vinda de uma Era de Aquário baseada na filosofia paz e amor, a queda do muro de Berlim levou consigo todas as expectativas do mundo atual. Tanto para o bem, quanto para o mal.
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