Consumidores X Cidadãos

Por Guilherme Carvalhal

Vários estudos na sociologia costumam apontar uma mudança na relação entre pessoa e Estado no século XX em decorrência da alteração no perfil do primeiro sujeito desta relação. Estes estudos concluem que através do fomento do consumo em massa, capitaneado pela comunicação através da indústria cultural, os membros das sociedades seriam cada vez menos cidadãos e mais consumidores. Uma ótica assim costuma ser inerente a um visão negativa sobre os componentes de uma sociedade serem mais consumidores do que cidadãos.


A base das sociedades atuais, de deocracias liberais, se deu com a participação popular, como nas comunas após a Revolução Francesa e na democracia norte-americana. Logo, perder o princípio fundador que é a participação dos cidadãos nas tomadas de decisão seria a perda da base que constitui o regime. Sem cidadãos, nada de democracia, e daí a visão negativa sobre esta mudança.


A tendência pelo desinteresse pela participação na política é mundial. Países onde o voto é opcional registram redução na quantidade de eleitores. Os debates políticos não têm uma grande capacidade de envolvimento popular. Tudo isso são indícios de uma sociedade em que o consumo e a produção são mais importantes que debater e solucionar problemas comuns a todos.


Apesar destes apontamentos, há quem defenda a importância da lógica do consumidor prevalecendo sobre a do cidadão para alguns pontos das políticas desenvolvidas. Boa parte do dito Estado de Bem-Estar (Welfare State), por exemplo, teria como base não a participação dos cidadãos, e sim dos consumidores.


O Estado de Bem-Estar surgiu de uma série de direitos conquistados. Do direito a moradia surgem políticas habitacionais, do direito à saúde o SUS, do direito à educação o sistema público de ensino, e assim prossegue às mais diversas esferas. A lógica do consumidor é importante por ser esta reponsável pelo “eu quero”, e deste querer surgem as pressões, resultando nestes direitos. E, no contexto atual das sociedades, o lado cosumidor das pessoas teria também sua importância para a configuração da definição das políticas públicas.

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